Um ano sem Steve, erros na Apple e a entrevista perdida

· PATYMARKETING
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Steve Jobs: a entrevista perdida”, filme-documentário que está sendo exibido no Festival do Rio deste ano, choca ao revelar um Jobs poucas vezes visto – pelo menos publicamente. O momento era “peculiar”: ele tinha sido afastado da empresa que criou pelo homem que escolheu e contratou (John Sculley), estava magoado, traído e perdido. O turbilhão de sentimentos está ali expresso em cada marca do rosto, nas grandes lacunas, nos (poucos) silêncios e nas risadas, sim, muitas risadas. Em uma obra de qualidade discutível e rico conteúdo, o personagem se analisa e se desnuda – na entrevista, gravada em VHS, o irascível, incontrolável e complicado Steve está simplesmente… vulnerável! O que nos leva a crer que mesmo gênios do seu calibre, pertençam eles a qualquer um dos dois lados da “força”, têm seus calcanhares de Aquiles e são capazes de sofrer, capitular e admitir.

A entrevista perdida“Steve Jobs: a entrevista perdida” é exibido no Festival do Rio

Para quem ainda não sabe do que se trata essa história aí, a tal fita, como o próprio nome diz, ficou perdida durante todo esse tempo e foi adquirida pela produtora Magnolia Pictures depois de resgatada da garagem do documentarista Paul Sen. A entrevista foi feita para uma série de reportagens intitulada “The triumph of nerds” (o triunfo dos nerds), em 1995, que contava a história da computação pessoal. Na época da entrevista, Jobs presidia a NeXT Computer que, como todos já sabemos, foi a responsável pelo surgimento do OS X e acabou sendo adquirida pela própria Apple. Depois da entrevista, Jobs retornou em grande estilo à Apple e não só salvou a empresa da falência como foi um dos principais responsáveis por revoluções em inúmeras áreas da sociedade – música, cinema, animação, computação pessoal, editoração eletrônica, literatura e por aí vai.

Coincidentemente, a estreia de “A entrevista perdida” nos cinemas que participam do Festival do Rio aconteceu um dia antes do marco de um ano da morte de Steve Jobs – hoje, 5 de outubro. Homenagens estão sendo prestadas pela indústria, começando pela própria Apple em seu site, que publicou um vídeo-memorial destacando o legado de seu fundador e comandante em chefe por tanto tempo.

A entrevista-filme e a data também chegam num momento no qual, mesmo com o sucesso de vendas do iPhone 5, o futuro da Apple tem sido analisado e por muitos contestado. Teria Jobs aceitado lançar um produto aguardado, ansiado e desejado – o iPhone 5 – impregnado de erros tão primários como os do Apple Mapas (quem baixou o iOS6 sabe do que estou falando)? A obcecada busca por perfeição de Steve levaria ao mercado um produto tão pouco… inovador? Será que a Apple está mudando de rumo, se perdendo no meio do caminho? Será que Jobs realmente faz falta?

Steve JobsUm ano após sua morte, Steve Jobs é homenageado no site da Apple

Não sejamos tão radicais. Steve errou inúmeras vezes, dentro e fora da Apple. Não era um engenheiro, mas um vendedor; era um hippie remediado e um chefe falho e assustador; foi criticado por ter transformado os Macs em caixas pretas (isso nunca mudou); foi acusado de roubar ideias alheias e lançar produtos semelhantes – mas melhores (projetos como a valorização da interface gráfica e a editoração eletrônica, por exemplo, começaram com uma visita ao PARC da Xerox); criou produtos caros demais, pesados demais (como o Lisa); lançou o curioso e inútil Cube; amarrou os desenvolvedores a grilhões; passou a perna em muitos, humilhou funcionários, passou muito tempo longe dos sabonetes e vestido de camisetas pretas de gola roulet. Mas nunca foi ignorado por ninguém. E nunca será!

A falta de Jobs deve, sim, fazer parte da rotina da Apple, mesmo com a capacidade incontestável de Tim Cook. Mas não é verdade absoluta que Jobs não teria sido capaz de quebrar uma parceria com a Google (no que diz respeito à inclusão do Google Maps no iOS6).Teria feito isso sem pestanejar, se acreditasse realmente que seu software era semelhante ou superior ao outro. Obrigaria os usuários de todos os seus produtos a adotarem o que ele achava melhor e ponto. Simplesmente porque Jobs dizia saber o que o cliente queria. E quem usa seus produtos sabe que ele tinha razão.

Uma vez dono de iPhone, você vê morrer um bom pedaço de sua capacidade crítica”

O que mais é um iPhone do que um aparelho extremamente simples que te liberta da chateação de configurações infinitas? Repito que usar um produto Apple é ingressar num universo paralelo no qual tudo é tão simples e eficiente que você se torna um ser preguiçoso e mimado. Você passa a pensar como criança, perde um tanto do seu senso crítico e se torna um dependente. Por isso sempre digo, para aqueles que me pedem opinião e nunca foram clientes de produtos Apple, que é melhor não entrar neste universo quase sem volta.

Por mais que a gente adore o Android – e cá entre nós, ele se torna melhor a cada dia, assim como os equipamentos que o hospedam – uma vez dono de iPhone, você vê morrer um bom pedaço de sua capacidade crítica. Isso não significa que a cura para tal mal não exista. Eu mesma estou pensando seriamente em não investir no iPhone 5 e partir para o mundo Galaxy SIII.  Talvez eu e todos aqueles que ajudaram a encher os cofrinhos da Apple nunca venhamos a amar tanto um simples aparelho. É fato, porém, que os erros recentes da Apple podem ser uma luz no fim do túnel para quem deseja se libertar da “caixa preta” e ganhar a liberdade apregoada pelo mundo do Android, quem sabe?

Convenhamos: mesmo que um iPhone de Cook nunca seja um iPhone de Jobs, ainda haverá MacBooks, iPods, iPads, iTunes Store, filmes da Pixar e da Disney que nos farão manter contato diário com o genial e talvez insuperável – para alguns, canonizável – Steve.

Sim, ele faz falta. Ok, talvez seja mesmo insubstituível. Mas o mundo se transforma e daqui a pouco precisaremos de um tanto de outras coisas que não terão a participação dele. Assim, quem sabe, Jobs passe a fazer parte do nosso álbum de fotos guardado no armário e não seja mais nosso papel de parede.

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